Posts tagged ‘Gonçalo M. Tavares’

June 14, 2012

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Os dias são ocos – têm mais espaço dentro que fora – e não recebem influências apenas do exterior. Os dias têm dentro um espaço íntimo, não visível, que é infiltrado por bom ou mau tempo, bom ou mau humor, – como se, de facto, existisse um segundo sol capaz de trazer ou não a alegria.

[Gonçalo M. Tavares in ‘Uma viagem à Índia’]

November 6, 2011

Uma manhã

Por vezes, Calvino obcecado pelos métodos:
– Interesso-me de muitas maneiras pelas mesmas coisas.

Outras vezes, obcecado pelas coisas:
– Interesso-me da mesma maneira por muitas coisas.

Algumas vezes, baralhado:
– Interesso-me ao mesmo tempo de muitas maneiras por muitas coisas.

Hoje ao acordar, preguiçoso:
– Não me interesso por nada, porém faço tal coisa de muitas maneiras diferentes.

[trecho do livro “O Senhor Calvino”, Gonçalo M. Tavares]

April 4, 2011

A última falha

Estás morto e tentas confirmar se trouxeste tudo. Olhas para o corpo e tentas perceber de onde o sangue ainda sai. Não tens força suficiente para chegares com a mão aos bolsos, mas esforças-te para isso. De novo tens vontade, mas ficas a meio. Estás morto e tentas confirmar que trouxeste tudo. Há sempre qualquer coisa que se esquece, e mais uma vez isso aconteceu.

[Gonçalo M. Tavares]

March 24, 2011

O Senhor Kraus é que tem razão (3)

– A ideia é a seguinte, senhor Chefe. Fazemos duas pontes, uma ao lado da outra. Cada uma delas só terá um sentido. Numa ponte os carros vão para lá, na outra os carros vêm para cá. Que lhe parece? Lado a lado, com distância entre elas de menos de cinquenta metros. Dá para dizer adeus de uma para outra. Seriam como duas pontes irmãs. Duas pontes inéditas na Europa!
E mesmo no mundo.
No mundo!
O Chefe abanou a cabeça e apostou num longo silêncio. Depois com voz grave, disse:
– Ainda antes das soluções engenhosas deve estar a preocupação com o dinheiro que se gasta. Porque o dinheiro não é nosso, é da população-
– Muito bem, chefe.
– Bonito.
– Sendo assim, em vez de duas pontes proponho que se faça apenas uma, com os dois sentidos – disse o Chefe.
– Bravo! Excelente ideia, senhor Chefe.
– Impressionante.
– Passamos os gastos para metade – acrescentou.
– Pelas minhas contas, assim de cabeça, exactamente cinquenta por cento – concordou o Auxiliar.
– Bravo, senhor Chefe!
– Agora é o momento de anunciarmos que começamos a reduzir os gastos deste empreendimento para metade. Para que a população veja como zelamos pelo dinheiro comum.
– Muito bem.
– Só tenho pena – disse o Chefe – de que os meus excelentes Auxiliares não tenham proposto de inicio três pontes em vez de duas. Se tivesse sido assim hoje poderiamos anunciar a redução dos gastos para um terço.
– Tem razão, senhor Chefe.
– Falhámos! – murmurou o Auxiliar, baixando os olhos envergonhado.

[Senhor Kraus, Gonçalo M. Tavares]

March 24, 2011

O Senhor Kraus é que tem razão (2)

O Chefe gostava de mudança porque não gostava de estar parado. E não gostava de estar parado porque gostava da mudança. Eram estas as suas ideias sobre o assunto. O Chefe tinha outras ideias, mas sobre outras questões. Sobre estar parado e movimentar-se eras estas as suas ideias.
Duas.
Tentava alternar. Por vezes orgulhava-se de uma delas, outras vezes da outra. O Chefe dizia:
– Chama-se a isto propriedade comutativa da linguagem. Tal como dois mais três é igual a três mais dois, não gostar de estar parado é igual a gostar de movimento. E mais: gostar do movimento é igual a não gostar de estar parado. Não sei se me entenderam ?
Os dois auxiliares tinham entendido.
– Portanto – disse o Chefe, apontanto para um deles -, você!
– Eu ?!
– Sim, você!
– Que fiz eu?
– Nada. É esse o problema. Precisamos de fazer coisas. Não podemos estar parados. Já vos expliquei a questão da propriedade comutativa?
– Já, Chefe. Gostámos muito! Dá cinco; três, mais dois, dá cinco.
– Pelos vistos não percebeu. Não importa o resultado. O que importa é o movimento. Entende ?
Os dois auxiliares do Chefe entenderam. Pela segunda vez.
– Pois bem. Os dois, agora, mantendo-se sentados, vão bater com os pés no chão, muitas vezes, até eu mandar parar. Não param até às eleições!
– Que bela ideia, Chefe.

[Senhor Kraus, Gonçalo M. Tavares]

March 24, 2011

O Senhor Kraus é que tem razão (1)

– A questão é simples: os impostos servem para melhorar a vida do país. Certo ?
– Certo.
– Portanto…
– Portanto: quanto mais impostos um individuo pagar, mais o país melhora a sua qualidade de vida.
– Ou seja…
– Ou seja: quanto menos dinheiro cada pessoa tiver por mês para viver – pelo facto de pagar mais impostos – mais dinheiro tem o país, no geral.
– No limite: quando alguém compra um pão com manteiga e o come, está, objectivamente, a roubar esse pão com manteiga ao país.
– Isto é: quanto pior cada pessoa viver melhor viverá o país.
– Exacto.
– Viva pois o país! – exclamou o Primeiro Auxiliar.
O segundo concordou.
– A questão é: estamos ao serviço dos interesses do cidadão singular ou do país como um todo?
– Do país como um todo, chefe! – gritaram, em uníssono, os Auxiliares.
E repetiram ainda, com os braços levantados;
– Como um todo! Como um todo!
– E o país pertence a todos! – insistiu o Primeiro Auxiliar.
– Exacto. A todos!
– Portanto, se o nosso objectivo patriótico é melhorar a qualidade de vida do país, o que temos a fazer é…
– Piorar a qualidade de vida de cada cidadão!
– Aí está.

[Senhor Kraus, Gonçalo M. Tavares]

February 18, 2011

Livro da dança

interditar a memória.

Tornar a inteligência bela é voltar à não inteligência.

Só é belo o que não é inteligente; porque o inteligente é o não imediato: um passo atrás ou à frente, enquanto o belo é o instante, a superfície tão fina que frente igual a COSTAS, o início é o mesmo que o FIM.

interditar a memória.

a memória é ocupação do espaço.

a memória é o não imediato,

a memória é o inteligente.

O Corpo inteligente é inteligente mas não é corpo porque corpo é estar presente, agora, por completo, e o inteligente, repito o inteligente é o não-imediato, um passo atrás ou à Frente.

a dança não tem Memória.

A criatividade não tem Memória.

O Corpo começa agora no momento que acaba.

O Corpo começa no mesmo sítio que acaba.

O corpo é 1 sítio e 1 tempo e depois 1 outro sítio e 1 outro tempo que não recordam o sítio e o tempo anteriores.

CORPO AMNÉSICO.

Esqueceu porquê aqui e agora.

Aqui e agora e antes nada.

Aqui e agora e depois nada.

CORPO AMNÉSICO e sem projectos.

Cortar-lhe a cadeira dos velhos e o monte donde se vê o FUTURO dos NOVOS.

Um CORPO sem cadeira (não há cansaço porque antes não existiu) e UM CORPO sem VISÃO (o FUTURO é 1 espaço onde ainda não se chegou).

Sem visão não há nenhum lado onde se chegar, e sem cadeira não há sítio onde descansar, portanto só resta ao corpo ser todo aqui e agora e só resta ao corpo dançar.

(Corpo a quem cortaram a cadeira e os olhos).


[Gonçalo M. Tavares]

February 18, 2011

Sunday

Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.

[Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump, 2003]